Hipovitaminose em Usuários de Agonistas GLP-1 e Estratégias de Reposição Vitamínica Injetável versus Oral
Este relatório compila achados da literatura médica recente sobre o desenvolvimento de deficiências nutricionais (hipovitaminose) em pacientes utilizando medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 (como semaglutida e tirzepatida) para perda de peso. Além disso, analisa estudos comparativos sobre a eficácia da reposição vitamínica por vias injetáveis (intramuscular e intravenosa) em comparação com a via oral.
1. Hipovitaminose e Deficiências Nutricionais Associadas ao Uso de GLP-1
O uso de agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RAs) tem revolucionado o tratamento da obesidade, promovendo reduções de peso corporal que variam de 5% a 18% em ensaios clínicos [1]. No entanto, esta rápida perda de peso e os mecanismos de ação da medicação predispõem os pacientes a deficiências nutricionais significativas.
Um estudo de revisão narrativa publicado em 2026 avaliou dados de mais de 480.000 adultos e identificou que as deficiências nutricionais são comuns e progressivas nesta população [2]. Os mecanismos primários incluem a supressão severa do apetite, o retardo do esvaziamento gástrico e alterações na absorção intestinal [2].
As principais deficiências identificadas na literatura incluem:
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Nutriente |
Prevalência/Impacto em Usuários de GLP-1 |
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Vitamina D |
Deficiência ocorre em 7,5% dos pacientes aos 6 meses, aumentando para 13,6% aos 12 meses [2]. |
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Ferro (Ferritina) |
Usuários apresentam níveis de ferritina 26% a 30% mais baixos em comparação com pacientes usando outras medicações (como inibidores SGLT2) [2]. |
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Vitamina B12 |
O déficit de cobalamina tende a aumentar progressivamente ao longo do tempo de tratamento [2]. |
| Vitamina B1 (Tiamina) | Relatos de complicações neurológicas associadas à deficiência rápida de tiamina após início da terapia [3]. |
| Cálcio e Proteína | Mais de 60% dos usuários consomem abaixo dos requisitos diários, contribuindo para perda significativa de massa magra [2]. |
As diretrizes conjuntas do American College of Lifestyle Medicine e outras sociedades médicas enfatizam que a avaliação nutricional direcionada e o monitoramento laboratorial individualizado são essenciais, pois a ingestão insuficiente de calorias invariavelmente leva a uma ingestão inadequada de micronutrientes essenciais [1].
2. Comparação de Vias de Reposição: Injetável versus Oral
Embora a suplementação oral seja a abordagem padrão inicial, a literatura médica apresenta evidências robustas sobre os benefícios das vias parenterais (intramuscular e intravenosa), especialmente em contextos de malabsorção ou necessidade de repleção rápida.
2.1 Reposição de Vitamina D
Estudos comparativos demonstram que a via intramuscular (IM) oferece vantagens significativas para a manutenção de níveis séricos a longo prazo. Um ensaio clínico randomizado comparou doses equivalentes de colecalciferol (vitamina D3) administradas oralmente (60.000 UI semanais por 5 semanas) versus uma dose única intramuscular (300.000 UI) [4]. Aos 12 semanas de acompanhamento, o grupo que recebeu a injeção IM apresentou níveis significativamente mais altos e sustentados de 25-hidroxivitamina D em comparação ao grupo oral (25,46 ng/mL versus 16,66 ng/mL; P<0,001) [4].
Outro ensaio clínico randomizado com 100 pacientes comparou doses muito altas (600.000 UI) pelas vias oral e IM [5]. Após dois meses, a via IM corrigiu a deficiência em 93,8% dos pacientes, enquanto a via oral corrigiu em 83,3%. Aos seis meses, os níveis séricos no grupo IM permaneceram significativamente superiores [5].
2.2 Reposição de Ferro
Para pacientes com deficiência de ferro, a terapia intravenosa (IV) demonstra superioridade clínica notável. Um estudo observacional recente comparou sulfato ferroso oral com ferro sacarose IV [6]. Os resultados mostraram que a via intravenosa aumentou a hemoglobina de forma muito mais rápida e eficaz aos 28 dias (11,66 g/dL no grupo IV versus 9,69 g/dL no grupo oral; P<0,001) [6].
Além da eficácia, o perfil de tolerabilidade favorece a via intravenosa. No mesmo estudo, 24% dos pacientes no grupo oral apresentaram efeitos adversos gastrointestinais (como constipação e náusea), em comparação com apenas 12% no grupo IV [6]. Para usuários de GLP-1, que já sofrem frequentemente com náuseas e constipação induzidas pela medicação, evitar suplementos orais que exacerbam esses sintomas é uma vantagem clínica substancial.
2.3 Reposição de Vitamina B12
No caso específico da vitamina B12, a literatura mostra que altas doses orais podem ser tão eficazes quanto injeções para a maioria dos pacientes. Uma revisão sistemática da Cochrane concluiu que a suplementação oral de 2.000 mcg/dia é superior à injeção IM de 1.000 mcg/dia, enquanto doses orais de 1.000 mcg/dia são equivalentes às injeções [7] [8]. No entanto, as injeções intramusculares permanecem recomendadas para pacientes com problemas de absorção gastrointestinal ou baixa adesão ao tratamento oral diário [9].
3. Indicações para Terapia Injetável em Usuários de GLP-1
A fisiologia da absorção de nutrientes é complexa e depende da integridade da mucosa gastrointestinal, acidez estomacal e motilidade [9]. Como os GLP-1RAs alteram fundamentalmente a motilidade gástrica, a biodisponibilidade de suplementos orais pode ser comprometida [2].
A terapia intravenosa ou intramuscular contorna o trato gastrointestinal, garantindo 100% de biodisponibilidade e concentrações terapêuticas imediatas no sangue [9]. Com base na literatura revisada, a transição da reposição oral para a injetável em usuários de GLP-1 é clinicamente recomendada nos seguintes cenários:
- Intolerância Gastrointestinal Severa: Quando os efeitos colaterais do GLP-1 (náusea, vômito, retardo do esvaziamento gástrico) impedem a ingestão ou absorção adequada de suplementos orais [1] [9].
- Deficiências Refratárias: Quando os exames laboratoriais de acompanhamento não mostram melhora após 3 meses de suplementação oral adequada [5].
- Necessidade de Repleção Rápida: Especialmente no caso do ferro, onde a via intravenosa corrige a anemia significativamente mais rápido que a via oral [6].
- Manutenção a Longo Prazo: Para nutrientes como a Vitamina D, onde injeções intramusculares trimestrais ou semestrais garantem níveis séricos mais estáveis e sustentados do que a suplementação oral diária ou semanal [4].
Conclusão
Pacientes em uso de canetas emagrecedoras (GLP-1RAs) estão em risco documentado de desenvolver múltiplas deficiências nutricionais, particularmente de vitamina D, vitamina B12, ferro e tiamina. Embora a reposição oral seja frequentemente a primeira linha de tratamento, estudos demonstram que a reposição injetável (IM para vitamina D e B12; IV para ferro) oferece vantagens significativas em termos de eficácia, rapidez de resposta e sustentação dos níveis séricos. Para pacientes com GLP-1 que já apresentam motilidade gástrica alterada e sintomas gastrointestinais, as vias parenterais representam uma alternativa terapêutica superior para garantir a adequação nutricional durante a perda de peso.
Referências
- Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M, et al. Nutritional Priorities to Support GLP-1 Therapy for Obesity: A Joint Advisory. Am J Lifestyle Med. 2025;19:15598276251344827. URL: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12125019/
- Micronutrient and Nutritional Deficiencies Associated With GLP-1 Receptor Agonist Therapy: A Narrative Review. Clinical Obesity. 2026. URL: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/cob.70070
- Neurological complications associated with rapid weight loss and nutritional deficiencies following GLP-1 agonist use: a case report. BMC Neurology. 2025. URL: https://link.springer.com/article/10.1186/s12883-025-04540-7
- Gupta N, Farooqui KJ, Batra CM, Marwaha RK, Mithal A. Effect of oral versus intramuscular Vitamin D replacement in apparently healthy adults with Vitamin D deficiency. Indian J Endocrinol Metab. 2017;21(1):131-136. URL: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5240054/
- Comparison of Vitamin D Replacement Strategies with High-Dose Preparations. Endocrine Practice. URL: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1530891X20355282
- Das SN, Devi A, Mohanta BB, et al. Oral versus intravenous iron therapy in iron deficiency anemia: An observational study. J Family Med Prim Care. 2020;9(7):3619-3622. URL: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7567229/
- Wang H, Li L, Qin LL, Song Y, Vidal-Alaball J, Liu TH. Oral vitamin B12 versus intramuscular vitamin B12 for vitamin B12 deficiency. Cochrane Database Syst Rev. 2018;3:CD004655. URL: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6494183/
- Oral vs. Intramuscular Vitamin B12 for Treating Vitamin B12 Deficiency. American Family Physician. 2022;105(6):663. URL: https://www.aafp.org/afp/2022/0600/p663
- Alangari To IV or Not to IV: The Science Behind Intravenous Vitamin Therapy.
Cureus. 2025;17(6):e86527. URL: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12182718/